terça-feira, 14 de abril de 2015

Impressões: Mercado Persa 2015

Depois de dois anos afastada, resolvi voltar a fazer parte da dança do ventre. Comecei minhas aulas no dia 28/02, super recente, ainda estou destravando várias partes do meu corpo e eis que surgiu a oportunidade de conhecer e cobrir o Mercado Persa. Assim, as minhas impressões estarão muito mais voltadas a meu retorno e minha redescoberta da dança e meu ininterrupto contato com a cultura árabe do que exatamente uma análise crítica e técnica, mas vamos lá! 

Bicho do mato, eu! Nunca havia vindo para o Mercado Persa ou qualquer evento de dança do ventre fora do Rio, já vi algumas meninas participando deles, mas sem grandes envolvimentos. Então qualquer evento do Rio de Janeiro (que eu já tenha ido, quem sabe há surpresas por aí) não tem comparação com a grandiosidade do Mercado Persa

Falando do espaço:
O WTC é bem prático por causa do shopping. Era engraçado ir na praça de alimentação e encontrar várias pessoas com figurino, eu ficava imaginando o que pensavam os atendentes. Dentro do Centro de Convenções, a decoração estava impecável, os tapetes bem colocados (não tropecei em nenhum e não vi ninguém tropeçando) e as mesas do expositores pareciam até mesmo fazer parte da decoração. Eu que pude ir somente sábado e domingo, percebi que domingo por ser o último dia do evento, estava extremamente lotado! A parte da entrada estava muito difícil de transitar, acredito que os vendedores daquele espaço não tenham tido tanta sorte nesse dia, pois era impossível parar sem levar encoxadas e esbarrões. Na área dos palcos a lotação também era máxima, mas acho que o que complicou mais foi a falta de educação de algumas pessoas: gente em pé atrapalhando a visão das apresentações, bolsas espalhadas pelo chão (altos malabarismos e alongamentos para pular todas elas), mesmo havendo lugar para guardar essas coisas.

Falando da organização:
Nesse momento faço uma ode de graças à Iolanda, que me salvou inúmeras vezes. De fato, num evento de grande porte, a organização é a área mais trabalhosa, e que devia ter pessoas melhores selecionadas. Não falo sobre educação, boa vontade ou atenciosidade, mas exatamente pessoas que deveriam ser responsáveis, mas não assumem qualquer responsabilidade. Não só eu, mas outras pessoas ficavam minutos preciosos (no domingo fiquei 1h30) esperando alguém liberar a sua entrada porque ou não achavam o envelope com seu nome, ou não encontravam no arquivo do computador, e queriam que outra pessoa - que nunca estava na recepção - assumisse a responsabilidade de liberar quem estivesse com este problema, mesmo que a pessoa tivesse comprovantes para entrar. Em relação a parte das bailarinas, por eu não estar envolvida nem pessoalmente ou com alguém que fosse participar, a minha visão foi de que tinha muita gente gostando da experiência, apenas com reclamações sobre o local de se trocar ser muito exposto e pequeno, e os banheiros serem sempre escolhidos como segunda opção! Além de dificuldades para saber onde entrar e sair dos locais de apresentação, aqui pontos positivos para os seguranças, muito simpáticos, que guiavam as meninas perdidas com cordialidade.

Falando das mostras, concursos e palestras:
Ficar presa na entrada me impediu de acompanhar decentemente essas atividades, até porque chegar no meio delas me deixava perdida no que estava acontecendo. Tentei ver alguma coisa, mas não foi bem meu foco durante o Mercado Persa. De fato a grande maioria das dançarinas seguia o estilo alongada, carão, giros e poses, isto é, buscando limpar o máximo possível a dança. Como disse uma amiga minha, Sarah, dava pra sentir o nervosismo delas da platéia, mas isso não diminuía sua qualidade da dança, muitas me surpreenderam positivamente. Ah, sobre surpresas, o grande diferencial desse evento foi ver homens em todas as modalidades de concursos e danças. Não apenas no folclore, mas no meio de coreografias em grupo, em solos, em apresentações DI-VI-NAS! Adorei não só a participação deles, como também o acolhimento da platéia que os assistiu, pois no Rio já vi situações bem tensas quando um homem entrava no palco dançando o tradicional estilo feminino. Sobre as palestras, eu fiquei deslumbrada na barraca de prata (nada de ouro, inshallah) do Magdy Basha e quando me dei conta, a Jade el Jabel já tinha falado a tão comentada e famosa palestra. #chateada

Falando dos expositores:

Digo que foi aqui que fiquei, foi aqui que me senti acolhida! Não por estar torrando dinheiro (quem me dera!), mas por encontrar gente muito bacana: Ahmed e sua barraca tipicamente egípcia, e sua esposa Vanessa, na barraca de henna, Carlos Karan e sua impressionante sensitividade, e ainda caligrafia árabe com o Abdelaziz Bahsain, que realizou meu sonho de ter em quadro a frase "Eu tenho um coração árabe". Ainda pude tocar um pouco de derbake, um pouco de snuj, brincar com as espadas com a Sarah, falar todo meu árabe reprimido (em clássico e rir do Ahmed me zoar dizendo "árabe clássico é F***A"), e as pessoas que não soube o nome, mas ficaram na minha memória e no meu coração!
Domingo ainda tive a alegria de ter a companhia da Sarah Ghuraba, muçulmana e blogueira, na minha visita "antropológica" e daí foi só diversão! Lá naquele cantinho acolhedor, havia um mini palco onde vimos apresentações de dança do ventre e dança cigana, uma moça inspiradíssima por sinal (geralmente só vejo gente pulando e sacudindo a saia, essa lacrou!) e derbakistas com Carlla Silveira, diva divônica! Com ela eu paguei meu máximo mico extreme: chorar, oh! Ansuya já teve essa experiência comigo, haha. Como havia falado no post passado, voltar à dança é como voltar pra casa, se sentir na sua tribo e a minha inspiração era a Carlla. Tava eu olhando as barraquinhas distraída, quando olhei pra cima e pá!, estava lá ela, e só foram lágrimas e lágrimas que me rolaram. Como comentei com umas meninas da dança, não sei como ela é enquanto pessoa, eu a conheço pela sua dança; o povo ainda diz que ela não bem saiu da dança do ventre porque ela continuou vendendo seus produtos, mas ora, eu também mantive o blog no ar, por um tempo até com as contribuições da Lívia, e isso não deslegitimou minha distância no corpo e no coração. Voltar, deixar pra trás medos, preconceitos, mágoas, é um passo muito grande, é falar: "é isso que me faz feliz, na sua essência, eu quero de volta!". Então Carlla é minha inspiração e vê-la num momento icônico como esse (estar no maior evento de cultura árabe do mundo com o espírito de iniciante) foi algo emocionante para mim! (espero apenas que não tenha sido assustador para ela, haha).

Falando do espetáculo:
Sábado à noite houve o Espetáculo Oásis, com a Banda Mouzayek. O Tony continua a mesma coisa das minhas lembranças, um pouco mais velho, claro, mas o mesmo "ahhhhhh" - o tarab infinitivo que ele fica fazendo - em todas as músicas, especialmente no início do show. Nesse evento eu tive a companhia de uma senhorinha extremamente animada e fofa, a dona Leatrícia, Lia para os amigos. Dona Lia tem uma neta na dança do ventre e já sabia diferenciar estilos e qualidade de apresentações. Uma fofa mesmo! No show, a presença masculina foi bem forte, especialmente folclórica, mas tendo representantes da dança tradicional com Pablo Acosta com a música Habibi Ya Eini (finalmente uma música que pude cantar, percebi que meu repertório de músicas está desatualizado!). Ele foi uma das apresentações mais cativantes!
Das novidades, tivemos o indiano Sunny Singh, que deixou as mulheres no cio na plateia. Músculos e gingado, meninos, anotem a dica! No dia seguinte ao show, até fui conhecer esse tal indiano, como deu pra perceber, ele é excelente dançarino, mas como pessoa... Ok, talvez eu tenha enfiado o dedo na ferida, mas começou com: "você dança bem e é bonito, parece aquele ator do filme Krrish (Hrithik Roshan).", resposta: "não, não pareço". Daí o dedo na ferida foi perguntar sobre a questão racial na Índia, ele sendo um indiano com "fair skin", pele clara, nossa, ele me chamou de ignorante! Ok, me disseram que a palavra "ignorance" em inglês não tem o mesmo peso em português, mas ele foi super grosseiro no resto da resposta, e ainda disse que apenas o sul da Índia tem a pele escura, o resto é tudo branco e por isso os filmes só tem atores brancos (aquelas fotos de Mumbai com pessoas de todos os tons de pele é ilusão de ótica, vlw flw).
Falando de coisa boa, que maravilinda é a Mahira Hasan! Todas as dançarinas profissionais foram divinas, mas ela foi, para mim, a mais perfeita. Claro que Ju Marconato foi a sensação no palco (ela é a cara da minha amiga Virgínia Njainne!). O que ainda reparei nelas é como as roupas de dança do ventre estão ganhando ares modernosos: bustiês fechados, cortes incomuns nas saias, mostrando shortinhos do mesmo tecido, minissaias com cauda, foi uma boa surpresa para mim.
Falando de coisas não tão boas, algumas dançarinas não profissionais estavam bem aquém da qualidade que vi nas apresentações das mostras e concursos no sábado e domingo. Será o nervosismo? O fato é que achei até estranho elas ali. Outra coisa meio estranha foram umas dançarinas vencedoras tendo que dançar pela primeira vez com banda ao vivo com as medalhas no pescoço! Gente, é uma experiência única, a gente quer estar linda e perfeita, e aquela medalha rodando no nosso pescoço te tirando a atenção. Ruim, não?
No fim, claro, veio o dabke que sempre termina em bagunça boa. Já havia tido um maior contato com o público com os dançarinos descendo do palco, começando pelo Tarik e fechou nessa interação com a galera subindo no palco para fazer a roda de dabke. Eu gosto, mas não arrisco não, haha, eu não tenho coordenação motora para isso! Fato comprovadíssimo é que homens dançando dabke são muito sexy, meu maridinho está intimado a aprender para me seduzir, haha.

Então essas foram as minhas impressões do evento. Sinceramente, considero que há impressões diferentes dependendo do que você está buscando e como você se insere nele. Eu estava passeando, basicamente, e também pesquisando. Para mim foi uma forma de experiência antropológica, e como historiadora, eu fiquei mais admirando e analisando pessoalmente que criticando tecnicamente. Talvez eu estando mais envolvida com a dança do ventre, quem sabe até competindo (será?!), eu tivesse uma postura mais analítica, eu visse outros aspectos e detalhes que me chamariam mais a atenção e pesasse mais na hora de narrar minha experiência. Agora eu já inseri a comunidade muçulmana de São Paulo para passar por lá, primeiramente com as impressões da Sarah - que amou tudo! - e também já deixei avisado o meio acadêmico árabe e islâmico da USP, o qual ano que vem deve estar lá para deixar seu olhar. Acho que pelo próprio caráter do evento, ele não se limita a ser um entretenimento e uma atividade puramente para envolvidos diretamente com a dança do ventre, mas para todos aqueles que gostam ou querem conhecer a cultura árabe, e a partir daí, ter acesso a outras culturas orientais, como a cigana e a indiana. Apesar de não ser barato, pela sua grandiosidade, é uma ótima oportunidade para se divertir e conhecer esse meio, e pensando no significado de seu nome, a construção deste evento me remeteu à imagem de uma Isfahan medieval abrangendo diversos povos, trocas e riquezas, uma representação da comunhão de culturas que foi, uma vez, o império árabe.

"Tenho um coração árabe" S2

sábado, 28 de março de 2015

Eventos: Mercado Persa 2015


Tradição no meio bellydancer brasileiro!

Mais informações aqui.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Não sei mais dançar... E agora?

Todo mundo que começa a fazer dança do ventre e se dedica por algum tempo vai "subindo de fase". A gente começa como iniciante, vai para o intermediário, algumas chegam ao avançado e outras poucas se profissionalizam. É seu corpo se adaptando à dança e, claro, seu esforço em estudar e vencer seus próprios limites.

Mas a vida nem sempre segue uma linha reta em tudo que fazemos. A gente pode chegar até o último estágio, outras prioridades tomam a vez e, quando vemos, a dança do ventre não faz mais parte da nossa vida! Geralmente é um intervalo, conheço pouca gente que realmente abandona a dança do ventre (ao menos se chegou ao nível intermediário), mas quando passa MUITO tempo?

Talvez aqueles passos bem básicos vão estar ainda na sua mente, e seus braços ainda vão se manter na posição, sem retroceder às "garras" da época iniciante. Mas e o redondo?! Eu faço uma maravilha pra direita, agora pra esquerda parece que estou usando um bambolê. E principalmente: o shimmie!! Me diga alguma pessoa que tenha ficado 2 anos sem dançar, voltar e shimmar que nem Soraia Zaied! É um festival de solavancos!

Pode bater um desânimo, na verdade, nem exatamente desânimo, mas pensar: caraca, eu desaprendi a dançar! Como isso aconteceu?! Eu ouvia música árabe toda vez que faxinava a casa e ainda dava meus passinhos! Meu corpo devia ainda estar meio acostumado, não?

Pois é, não. De repente aquelas meninas que faziam balé desde a infância e tem todos os seus músculos do corpo naturalmente alongados possam ter menos dificuldade para voltar, mas e daí? Por que não voltar e entrar numa turma iniciante? Rever todos aqueles movimentos que fizeram a sua alegria por muitos anos? Ou então arrumar uma professora particular para fazer seu corpo sofrer desafiar novamente seus próprios limites. Por que desistir antes mesmo de começarDançar é muito prazeroso! Dançar um estilo de música que a gente gosta é "mais melhor de bom" ainda! Não é para a gente fazer aquilo que gosta? Então se joga! :D
Fico aqui com um vídeo de uma diva bellydancer que chegou a deixar essa arte, mas voltou para nos brindar com seu talento: Carlla Silveira!


Related Posts with Thumbnails